quarta-feira, 14 de abril de 2010

Saúde!

É assim. começa com um stressezinho, aos 17 anos... pressão da família, vestibular, essas coisas.
Psoríase. E nem pra você passar na USP.
Daí ela aumenta, e você passa dias de sua vida passando corticóides. Claro, depois descobre que eles pioram a situação a longo prazo.
E ela aumenta mais ainda. Você acaba fazendo 30 mil sessões de banho de luz UVA, com um remedinho ba-ca-na que deixa o corpo sensível à luz - opa! Hipersensibilidade ao sol! E agora, José, como enxergar de manhã? Desista.
Mas ela melhora. A psoríase finalmente regressa e sua pele volta a ser uma bundinha (branca) de neném.
O que ninguém lembrou é que enquanto você parecia um enorme monstro rosa e descascava quatro quilos de pele por dia, sua depressão transforma-se em transtorno alimentar e você se torna uma orca.
Otimismo! Vamos mudar isso aí, gatinha!
Começa a nadar. Começa a malhar. Correr. Muda os hábitos alimentares. Transforma-se.
É, finalmente, após 3 anos de sofrimento, uma pessoa bonita, com a pele macia e relativamente, digamos, gostosa.
O auge de uma vida feliz! Fim de faculdade, vida amorosa estabelecida, corpo sarado, emprego bacana, amigos divertidos.
Mas não, não, caros amigos. O mundo não acaba em festa. Se alguém te disse se não está bem é porque ainda não acabou, ele estava redondamente enganado. Afinal, se tudo acaba com a morte, como uma coisa poderia terminar bem?
Esforços demais rendem a você uma condromalácia patelar com uma deliciosa bursite. Sedentarismo forçado. Volte pra casa, guria, e trate de fazer 20 sessões de fisioterapia e um tratamento de 6 meses de reposição de glucosamina e condroitina. Vale ressaltar que a mistura tem gosto de vômito.
Depois de testar todos os sabores de essências para a combinação vomitante, e fazer amizade com todos os farmacêuticos da sua cidade, você está feliz e alegre com a certeza que em mais um mês poderá finalmente voltar a malhar, correr, e fazer tudo aquilo que libera serotonina no sangue, transformando-te numa pessoa capaz de encontrar a felicidade - tipo um viciado em cocaína.
Então você está gorda (porém contente), e aparece uma festa bacana. Toma todas.
Resolve deitar e dormir. Sente, então, corroendo sua alma, toda a cerveja subindo pelo canal que deveria estar descendo. Corre, como se não houvesse amanhã, até um banheiro - esquecendo-se logicamente do detalhe "degrau" que há no meio do caminho.
Torce o pé.
Lesões graves nos ligamentos e no tendão.
Desemprego. Pós-graduação a se finalizar e um TCC estagnado ao título. Alergias.
Stress.
Psoríase.
Gastrite.
Mais uma semana de antinflamatórios e 30 sessões de fisioterapia.

**********************************************************

Começo a acreditar que preciso cuidar da alma, crer em deus, entrar pra Universal, essas coisas que as pessoas fazem quando não há mais saída e cansaram de ser realistas sobre o fato de que nunca nada irá mudar, por mais que você se esforce. Começo a considerar o conformismo, ainda que meu sangue ferva diante do mundo que perco sentada em frente a uma janela, com o pé pra cima, esperando um corpo inútil regenerar-se de sua própria sede de vida. Começo a pensar que o certo é ficar assim, e essa é a ordem natural das coisas. O certo é esse manto branco de paz e calmaria que as pessoas normais definem como vida, e eu erroneamente defino como tédio. Mas como esperar um corpo atender seus desejos enquanto a mente sonha e definha?
Aceite. Conforme-se. Espere. Proponha um brinde e grite: Saúde!
Um dia a vida acaba. E vão dizer que acabou bem...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sem título #02

Desligo a luz. O mundo acalma.
Não tem barulho. Não tem limite.
Essa pressa que finda em passos
logo vira um andar cansado.

E ela vem, vestida de branco.

Sorri, como se fazem os fortes.
Sabe que forte é só o tempo
e eu nunca tive paciência.

Mas olha lá! Tem alguém ali na frente!
E vem!

Vem como o raio fino que atravessa as cortinas
Vem como o pão quente na manhã de sábado
Vem como a flor amarela que nasceu no asfalto
Vem como a paz que ninguém soube ter...

Segura o choro! Limpa essa cara!
Diz que a vida é longa, e que ainda tem chances.
Que é tempo ruim, que tempo é nada.
Vai passar, pequena. Sempre passa.