domingo, 20 de junho de 2010

Plataforma 40

Moça, é esse o seu banco?
Não, minha passagem não é numerada.
Pois esse é o meu banco.
Levanto. Acho bacana essa noção de propriedade regulamentada pela lei que dá ao usuário do ônibus a possibilidade de dizer "o banco é meu." Senta, senhora. Fica a vontade. Vou lá pro fundo. Janela. Uma moça bonita se aproxima. Bonita mesmo, mas extremamente sem graça. Magrela, cabelo curto, óculos. Certeza que era engajada em movimentos socio-ambientais, estudava história e votaria na Marina Silva. Esse tipo a gente reconhece de longe. Eu, pelo menos, reconheço. Eu também seria assim, se ainda acreditasse em qualquer coisa. Mas é que já faz tempo, muita coisa perdeu o sentido. Prefiro comer um salmão que salvar uma baleia. Já tem muita gente que salva baleias, muito mais do que gente que come salmão.
Sua passagem é pra essa cadeira?
Não, é a 34 mesmo.
É que a minha não é numerada. Risadinha. Já me mandaram embora lá na frente. Se aqui for teu lugar, eu saio, numa boa.
Não, é a 34 mesmo.
Não levanto. Ela senta. Parece menos engajada assim, falando desse jeito estúpido.
Moça, sabe que horas esse ônibus chega lá?
Uma hora e meia.
Risadinha. Não, moça, eu desço em Campos!
Então, não sei.
Eu não quero ser sua amiga. Não quero ficar a viagem inteira conversando com você. Já me é suficiente as quatro frases que troquei com a moça do caixa da lanchonete lá na rodoviária. Ela sim era gente. Gente grande, que não é engajada, chega uma e meia da manhã em casa e tem sono. Pedi aquele que na foto parecia um belo lanche. A verdade é que era um filé de frango lambuzado em maionese com uns pedaços de tomate e uma folha porca de alface. Enquanto eu comia, vinha em mim a plena certeza que o frango tivera sido jogado num processador ainda com bico. Aquele filé serviria bem pra eu substituir a palmilha velha do meu sapatinho preto, aquele lá que dá um chulé desgraçado.
São R$14,50, ela disse, e bocejou tão alto que eu fiquei sem graça de estar indo viajar enquanto ela trabalhava.
Tá com sono?
Morrendo.
Sei como é. Sério.
Acho que ela não acreditou. Ninguém nunca acredita quando eu falo. Eu juro que tento dormir, toda noite. Mas o sono não vem, não adianta. Já eram três noites em claro. Me recuso a ir no médico. Me recuso a ouvir algum idiota que se formou numa Uniqualquermerda me dizer que um Rivotrilzinho resolve.
Não resolve.
Meu sono tem nome, sobrenome, história de vida. E condromalácia na patela esquerda.
Eu não queria mesmo ser amiga dela. Nem dela nem de ninguém naquele ônibus estúpido. Muito menos do rapaz simpático na minha frente. Estava imóvel, visivelmente chocado. Uma moça grande e com pressa passou com as rodinhas por cima de seus pés.
Você viu isso? Você pode me ver aqui?
Eu posso. Rimos. Ela deve estar num universo paralelo.
Indiferença. O pessoal faz passeata pra diminuir o buraco da camada de ozônio, pra acabar com o desmatamento na Amazônia, pra darem mais bambus aos pandas da China, pra desempregar as criancinhas da Nike, mas ninguém, ninguém nunca vai lutar contra a indiferença.
A fila na Pássaro Marrom era gigante. Não tinha serviço. Cheguei atrasada, perdi o ônibus das cinco. Desculpa mundo, é que eu estava muito ocupada sendo brilhante das seis da manhã até as quatro e meia, quando me liberaram. Eu vendo meu cérebro a um preço muito baixo, mas ainda assim ele me pertence. E o meu tempo? Algum dia ele será meu?
As poltronas não são numeradas. Só tem pra sete e meia. Não moça, não tem como saber a hora que chega lá, estamos sem sistema.
Não era nem seis da tarde ainda, e eu tinha que esperar. Vou dar uma volta, olhar as lojas, comer um lanche. Talvez eu tome um café, coma um chocolate. E o regime? Vivo com a doce dualidade da vida, aquela de escolher entre o prazer do sabor ou a culpa do corpo. A sociedade é muito cruel com crianças, velhos e gordos. Fazem passeata pelo orgulho gay, pelo orgulho negro, pelo orgulho cristão, até pra solteiros felizes eu já vi, mas nunca, nunca ninguém vai lutar pelo direito de ser gordo.
Pedi aquele lanche horrível de mousse de frango com salada e coca zero. Sem café. Sem chocolate. Muitas vezes, a culpa é a inimiga do prazer.
Muitas vezes, o prazer só vem com a culpa.
Às vezes eu tenho medo disso.
Faltava ainda meia hora, e minhas costas doíam com a mochila pesada. Sentei no chão em frente à plataforma 40. Uma moça de vestido de viscose florido acompanhada por um senhor e umas malas enormes estava de pé, ao meu lado. Eu não sou acostumada a estar por baixo. Ainda mais quando o ângulo de visão engloba um vestido de viscose florido segurando um sutiã número 48 muito bem preenchido.
É aqui que vai pra Suzano?
Não sei moça. Mas deve ter o número da plataforma aí na passagem.
Sorri. Eu estou sempre sorrindo. Sei que é errado. O certo talvez seja passar com a mala por cima do rapaz de cabelo rastafari e camiseta surrada. Ignorar pequenos atos de cordialidade, só pra evitar desconfortos. Apropriar-se de lugares nos bancos da vida, e não abrir a mão, nunca. Eu disse indiferença? Será que não seria melhor dizer intolerância? Eles estão lá, seguindo seus caminhos, chegando em seus destinos. Eu estou sentada no chão, olhando pra cima e sorrindo pra um par de peitos num vestido de viscose.
Preciso fazer esse tempo passar. Não quero ler. Não quero ouvir música. Não quero passividade. Preciso falar com alguém. Preciso gritar alguma coisa pra alguém. Quero que me olhem, que me entendam, quero qualquer coisa que me faça esquecer nomes, sobrenomes, rostos, obrigações, medos, frango processado no liquidificador com salada e coca zero, vontade de café, saudade, saudade, saudade, já faz tanto tempo que esse vazio me persegue e agora cansei de dizer tchau, de esperar, de ficar quieta.
Procuro na agenda o número de alguém. Ainda faltam vinte minutos pro ônibus chegar, e meu lugar não está marcado. Já faz tempo que não ligo pra nenhum amigo, já faz tempo que não sei pra quem posso ligar.
Ela me sorri de volta.
Tiro a passagem da carteira e começo a preencher. Um pombo velho e sem penas, que podia muito bem ter sido a base do lanche que comi, busca migalhas no chão ao meu lado. Pego a fila de embarque atrás de um rapaz de rastafari e camiseta surrada. Uma mulher de vestido de viscose passa por cima de seus pés com a mala.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O amor e o Shopping Ibirapuera.

Ok, me dou o prazo de 15 minutos pra escrever sobre isso, senão vira mais uma daquelas histórias gigantescas cheias de confissões vergonhosas (vide tópico do Portoga e CPM22), e eu to meio que evitando a fadiga.

Mas vejamos, hoje, dia 10 de junho, vulgo "antevéspera do dia dos namorados", dia o qual eu tinha plena certeza que nunca mais viveria pra contar história. Mas to viva (vivöna, inclusive) e escrevo o texto em forma de prosa contando, com muitas saudades e saudosismo, muitas das minhas histórias de amor até chegar nessa, que eu diria, pode ser a definitiva história de um dia dos namorados.

Primeiro porque eu não tenho tempo pra nada, e resolvi comprar correndo no tão adorado Shopping Ibirapuera (pros não-paulistanos leitores, é um daqueles shoppings enormes voltados pra classe A/B, num bairro chiquê e que cheira a pretzel em todos os corredores).

SIM, EU SOU PAULISTANA, CRIADA A LEITE COM PERA, E MINHA PRAIA ERA O SHOPPING IBIRAPUERA. E eu amava. Amava tanto que foi lá que nasceu meu primeiro amor. Meu primeiro beijo também. Meu primeiro trago. Minha primeira "coisa escondida". E não só primeiras coisas, digo que últimas também foram feitas ali. Minha última foto de Neoprint. Meu último lanche do Arby's. Meu último abraço choroso no Gui, em terras paulistanas.

Mas é dia dos namorados, e eu preciso falar de amor. Ou de qualquer coisa que pra mim pudesse representar o amor naquele momento. Eu tinha 12 ou 13 anos e conheci o Rodrigo. Me apaixonei logo de cara, provando por A+B que desde pirralha eu já sofria do eterno mal do encanto repentino por pessoas desprovidas de extrema beleza física (isso não é uma regra, ok, também pego caras bonitos, só que são raridades). Foi lá que andamos e passeamos muito de mãos dadas, abraços, e outras coisas inocentes de garotas que nunca deram seu primeiro beijo... E não, ele não sabia. Que vergonha, 13 anos e BV? Nunca. Preferia fingir que era a entendida e que a enrolação pra hora H era mero charme. Magina. Em todo caso, passeávamos, sim, de domingo, no shopping Ibirapuera, com as mãos dadas, e parando pra diversões eletrônicas do Playland ou comer um sanduba no Mac.
Aliás, reza a lenda (ok, não é lenda) que foi num desses passeios de enrolation que eu tive minha primeira grande decepção sexual. Estávamos lá, na turma, comendo nossos big macs, quando eu pego uma batatinha frita e começo a comer sensualmente olhando pra ele. Ele retribui o olhar, daquele jeito másculo, cheio de hormônios. Eu mastigo, boca semi-aberta, olhar de tigresa. Ele explode e a mesa toda cai na risada:
- Porra, você é bem engraçada comendo batata.

Devia ser março, ou novembro. Ou qualquer um dos outros 10 meses do ano, eu nunca me lembro bem. Chegou a hora, o afinal, o tchananã. Ele se despediu de mim na porta que era na época a entrada do cinema (bons anos onde eu podia ver SpiceWorld numa sala de cinema...), e veio com a boca em direção à minha. Num átimo de segundo pude vislumbrar inúmeras possibilidades dentro do espectro "topar ou vazar", considerando obviamente o fato de que já fazia mais de mês que ele tentava encostar a boca na minha e eu fugia legitimamente.
Pensei comigo "oquei, chegou a hora, tchau BV". E ele, enfim, pode tascar-me o beijo que eu esperava ansiosa, quase desesperada, confesso. E o desespero virou paixão, vi sininhos, estrelinhas, fogos de artifício, todas as borboletas de meu estômago dançando macarena, o mundo cor-de-rosa, PERA AI, ELE USOU A LINGUA? Usa-se a língua? Oh! Beijo na boca vai língua. Que estranho.
"Molhado", minha primeira definição sobre o famigerado beijo. Mas indiscutivelmente, o primeiro beijo.

(Logicamente se eu pudesse voltar no tempo, nunca contaria àquela baixinha de aparelho nos dentes que este que a beijava iria abandoná-la apaixonada por 1 ano, voltaria mais tarde dizendo que não queria nada com ela, retornaria pedindo um novo beijo, acabaria virando seu primeiro namorado e comeria o rabo de sua amiga 2 anos mais tarde numa festa de final de ano.)


No shopping Ibirapuera tbm tinha também a turminha porra louca, que tocava violão e fumava maconha. Eu não fumava. Só cigarro. Escondido. Era minha maior obra de rebeldia da adolescência. Beber num bar barato lá perto e fumar escondido. E tocar CPM22 no violão. Isso eu não fazia escondido. Fazia na frente de todo mundo, e hoje minha noção de caráter encara isso como ato quase heróico. E lá foi quando descobri o tamanho de um coração vanessístico. Me apaixonei pela turma inteira. E principalmente pelo Xis, um cara que se víssemos hoje chamaríamos tranquilamente de "pseudo-punk". Ou emo. Escolham.

Muitas tardes já passei no shopping Ibirapuera. Hoje em dia não imaginava voltar lá, mas eis que o caminho entre meu trabalho e minha casa compreende seus domínios, e me vi impelida por uma força maior. Força que me fez lembrar, e com muito carinho, daquele amigo que eu encontrei ali, na porta da frente, e me despedi na porta de trás. Guilherme, o querido Guilherme. O rapaz do abraço apertado, das músicas trocadas, de confissões no meio da madrugada e da amizade sincera e única, que de alguma forma pra mim nasceu naquele portão e viverá comigo independente da distância.

Já se passaram meia hora e eu ainda não parei de escrever. Contei episódios vergonhosos, e outros nem tanto, mas no final das contas é que fui lá, no shopping Ibirapuera, e fechei mais um ciclo. Antes, pisava lá como a criança que nunca havia beijado, mas que guardava nela todo o amor do mundo. Pisei como aquela que nega o amor, a paixão, e quer saber só da diversão e das coisas rápidas. Pisei como amiga, companheira, que entende o amor como algo muito maior que aquele de homem e mulher. E hoje, antevéspera do dia dos namorados, pisei como pessoa feita, que já viveu um bocado daquilo tudo o que o amor traz, mas que finalmente descobriu o encanto de se entregar completamente a alguém, fazer planos, sonhar acordada, e não ter medo dos sentimentos, somente sentir e ser feliz assim.

Não sei se fiz esse post pra falar de amor, ou do shopping Ibirapuera. Mas talvez, poderia passar mais algumas horas sentada naquela escadaria, pensando em tudo o que vivi e tudo que ainda vou viver. Cada amor e desamor construiu um pouco do que eu sou hoje, e todo o amor que tenho hoje constrói os dias o que eu quero ter pra sempre, do lado de uma única pessoa.

Feliz dia dos Namorados pra todos!
E pra mim também!