sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Hoje a Maísa me acordou
domingo, 26 de outubro de 2008
Café sem leite e sem nada
Entrou com um sorriso desconfiado e tímido. Cara de quem não sabe o que está fazendo com a maior segurança do mundo. Prendeu o cabelo na nuca com um nó. Cabelo grande. Ela toda era grande, apesar de pequena. Esgueirou-se pelas vigas de sustentação e apoiou-se no balcão. Um café, Puro?, Isso. Pegou um pacotinho de adoçante e ficou passando pelos dedos. Unhas vermelhas gastas. Pequenas em uma pequena mão branca. Era como se segurasse pequenos morangos nas pontas dos dedos, e eles brincassem com um pacote de adoçante. Não morava lá, certeza. Não. Aqui a gente conhece um por um. E ela não era do tipo que parecia artista, prostituta, viúva, prima do interior, travesti, ou qualquer um dos típicos moradores do centro de São Paulo. Parecia um nada sem fim, um grande túnel sem a luz do final. Pegou o café. Queimou a língua e se eu não visse suas sobrancelhas curvando-se em direção aos olhos, não suspeitaria. "Ninguém poderia ver sua dor", pensei. Mas eu via. Todos viam. Transbordava de sua serenidade comedida, com a graça leve de um palhaço que borra a maquiagem e não se abala.
Aproximou-se dela. Ele sempre se aproxima de alguém. Não é de falar muito. Desde que mora aqui o ritual é sempre o mesmo. Chega, pede um café, aproxima-se de alguém, troca quatro ou cinco frases, despede-se. Esse café deixa acordado?, Tomara, Não quer dormir?, Não quero sentir sono.
Ela não queria sentir sono.
Visivelmente não se interessava pela conversa furada, pela noite, pelos astros, pela alquimia, pelo nome dele. Só o café que seguia passando pela sua língua e despertando os sentidos que estavam começando a sentir sono. Por que não quer sentir sono?, Eu não consigo dormir, então sofro muito quando sinto sono. Essa foi a melhor razão possível que eu esperaria daquela pessoa. E com três minutos lá dentro, já me sentia parte dela, como se meu mundo se fundisse em sua falta de mundo. Despediu-se dela o rapaz, com um tchau sem graça. E se tivesse, ela não a veria.
Engoliu o fundo da xícara e deixou-a lá. Vi-a vindo até mim, respirando graciosamente um oxigênio que parecia não dar a vida a nenhuma de suas células. Uma viva morta. Um café e por favor, queria um desses brancos. Peguei o chocolate e dei em sua mão. Três reais. Sorriu. Era sincero, sinceramente triste. Obrigada, seu café é muito bom. Primeira vez que eu tomo café aqui. Eu sorri. Era sincero, sinceramente feliz. Mas eu sei que ela mentiu. Mentiu pra poder sorrir. Mentiu pra fingir ter prestado atenção no gosto. Mentiu pra fingir que estava vivendo, mas eu sabia que lá havia muito mais do que tristeza. E era aquele muito mais indecifrável, aquela dor que ninguém pode sentir além dela.
Desejei em pensamento vê-la viva, só por um instante. Mas ela não vai voltar. Nunca mais.