sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Hoje a Maísa me acordou

Isso mesmo que você leu. A Maísa. A deusa mirim do sarcasmo. A pequena-petit. O andróide futurista gerado em um pc pelo windows vista. Um anão vestido de criança. Essa aberração aí que tem gases no meio de entrevista.
Sim. 8 horas da manhã e meu celular toca. Já durmo com ele na cabeceira desde que comecei a trabalhar em casa - não são raras as vezes que ele toca 3 horas da madrugada com algum produtor gritando "Vaneeeeeeeessa preciso urgente de você amanhã, passa aqui as 7". Nem me irrito mais. Mas uma coisa é você ser acordado pela sua profissão e outra é pela sua... profissão?
Sim.
Há 4 anos e alguns meses, estava eu fazendo minha matrícula na faculdade de publicidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Lá eu aprendi quase tudo o que eu sei sobre propaganda. Aprendi também um termo que já é muito usado lá fora, e que chegou aqui com força nesses últimos anos, mas ainda não é completamente difundido - o Marketing de Guerrilha.
Explicações aa parte (é, eu não sei crasear em Mac, so sorry Jobs), eu nunca pensei que esse tal Marketing de Guerrilha fosse chegar na minha casa com tanta força ao ponto de eu ser acordada pela Maísa. Como eu já disse, era 8 horas da manhã. Sexta feira. Eu nunca tenho sextas livres. Sempre estou atolada de serviço que acumulou durante a semana e sempre tenho que acordar uma 7 horas da manhã pra resolver tudo antes do horário conhecido como "noite". Mas não. Essa sexta era minha. Dormi tarde na quinta vendo a reprise do melhor episódio de House, e pensei comigo "amanhã quero acordar na hora que eu bem entender".
E a Maísa me liga. As 8 horas da manhã, como eu já disse.

- É gente, eu sei que acordar cedo é chato. Muito chato mesmo. Mas pro seu dia ficar mais gostoso, experimente o novo Sucrilhos Chocopower!

Desliguei na hora. Joguei o telefone longe. Fui fazer xixi com a indignação típica de todo mundo que estuda publicidade e vê sua arte jogada no lixo com campanhas estúpidas, desrespeitosas e puramente comerciais.
Maísa, prometo nunca comer Sucrilhos Chocopower. Inclusive, prometo descobrir quem foi o infeliz que teve a brilhante idéia de invadir a minha privacidade, pegar o meu número de celular, me ligar num horário completamente idiota, e tentar me vender algo que não, obrigada, eu não quero.

E mais uma vez a publicidade me decepciona. 
Na próxima vida, prometo fazer engenharia química.

domingo, 26 de outubro de 2008

Café sem leite e sem nada

Entrou com um sorriso desconfiado e tímido. Cara de quem não sabe o que está fazendo com a maior segurança do mundo. Prendeu o cabelo na nuca com um nó. Cabelo grande. Ela toda era grande, apesar de pequena. Esgueirou-se pelas vigas de sustentação e apoiou-se no balcão. Um café, Puro?, Isso. Pegou um pacotinho de adoçante e ficou passando pelos dedos. Unhas vermelhas gastas. Pequenas em uma pequena mão branca. Era como se segurasse pequenos morangos nas pontas dos dedos, e eles brincassem com um pacote de adoçante. Não morava lá, certeza. Não. Aqui a gente conhece um por um. E ela não era do tipo que parecia artista, prostituta, viúva, prima do interior, travesti, ou qualquer um dos típicos moradores do centro de São Paulo. Parecia um nada sem fim, um grande túnel sem a luz do final. Pegou o café. Queimou a língua e se eu não visse suas sobrancelhas curvando-se em direção aos olhos, não suspeitaria. "Ninguém poderia ver sua dor", pensei. Mas eu via. Todos viam. Transbordava de sua serenidade comedida, com a graça leve de um palhaço que borra a maquiagem e não se abala.

Aproximou-se dela. Ele sempre se aproxima de alguém. Não é de falar muito. Desde que mora aqui o ritual é sempre o mesmo. Chega, pede um café, aproxima-se de alguém, troca quatro ou cinco frases, despede-se. Esse café deixa acordado?, Tomara, Não quer dormir?, Não quero sentir sono.

Ela não queria sentir sono.

Visivelmente não se interessava pela conversa furada, pela noite, pelos astros, pela alquimia, pelo nome dele. Só o café que seguia passando pela sua língua e despertando os sentidos que estavam começando a sentir sono. Por que não quer sentir sono?, Eu não consigo dormir, então sofro muito quando sinto sono. Essa foi a melhor razão possível que eu esperaria daquela pessoa. E com três minutos lá dentro, já me sentia parte dela, como se meu mundo se fundisse em sua falta de mundo. Despediu-se dela o rapaz, com um tchau sem graça. E se tivesse, ela não a veria.

Engoliu o fundo da xícara e deixou-a lá. Vi-a vindo até mim, respirando graciosamente um oxigênio que parecia não dar a vida a nenhuma de suas células. Uma viva morta. Um café e por favor, queria um desses brancos. Peguei o chocolate e dei em sua mão. Três reais. Sorriu. Era sincero, sinceramente triste. Obrigada, seu café é muito bom. Primeira vez que eu tomo café aqui. Eu sorri. Era sincero, sinceramente feliz. Mas eu sei que ela mentiu. Mentiu pra poder sorrir. Mentiu pra fingir ter prestado atenção no gosto. Mentiu pra fingir que estava vivendo, mas eu sabia que lá havia muito mais do que tristeza. E era aquele muito mais indecifrável, aquela dor que ninguém pode sentir além dela.

Desejei em pensamento vê-la viva, só por um instante. Mas ela não vai voltar. Nunca mais.

sábado, 25 de outubro de 2008

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

"I don't love you anymore. Goodbye."

Uma das minhas maiores felicidades na época da escola era pegar a cartilha de português e ler de cabo a rabo todos os textos. 
Tiveram dois, no entanto, que nunca sairam da minha cabeça. Não lembro qual era de quem, mas sei que um era da Cora Coralina, e outro da Cecília Meireles.
Não sei também como um conto pôde permanecer em minha cabeça por 15 anos, mas confesso que demorei demais pra entende-los completamente. Engraçado, você lê algo com 7 anos de idade e vai entender com 22.

Um deles, acho que o da Cora Coralina (eu não me conformava com esse nome, não deveria ser Carolina?) contava a história de amigos que subiam no pé de manga pra chuparem juntos. Então, uma vez, a mocinha da história viu a manga que parecia tão doce no pé e lá deixou, esperando para chupar com seu amigo. Esperou até a manga ficar bem madura e quando deu o dia de ir lá recolher a manga, o viu em cima do pé chupando a manga sozinho. 
Acho que era assim a história. Na verdade o que eu me lembro bem é do diálogo final. Ele dá a manga que sobrou pra ela e ela não aceita. E diz "eu te amava, agora nunca mais". Eu demorei absurdos pra entender isso tudo. Parecia muito claro pra mim que ninguém era capaz de deixar de amar alguém.
Demorei anos e anos. E anos e mais anos.
Mas hoje isso faz tanto sentido que incomoda. Queria algum dia poder abraçar a pessoa que escreveu isso e dizer obrigada. Juro que queria.



Alice: - I don't love you anymore.
Dan: - Since when?
Alice: - Now, just now.


=)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Travesseiro

Atravesso o céu cego no meio de suas pontas
Me desaponta
Sua distância e sua direção, mescladas no complexo ritmo da falta e sobra ensurdecedora da sua razão.
Mas o seu nexo descamba pra esse meu extremo medo, intolerância e incompreensão.
Tua noite cai quente diante de toda essa gente,
e atravessa as estrelas no compasso quebrado daquela canção que perturba - nem cessa, nem me interessa.
Vejo teu vulto passando e me empurrando e me pedindo licença.
"Toda!", passe, suma, voe, caia, morra.
Saia da minha imaginação!
Me deixa acordar em paz, sem tua voz, sem teu cabelo grudado na fronha do meu travesseiro.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Poema de Amor

Quando meu neurotransmissor se deu conta 
Já por ti liberava a dopamina
E minha hipófise, inundada de adrenalina
De tanto amor deixou-me tonta.

Esse meu córtex cerebral sistemático
tornou-se de seu estímulo dependente
em doses altas atua predominantemente
e estimula os receptores adrenérgicos do meu sistema nervoso simpático.

Mas a nossa ação é lenta e sem dinamismo
dura em torno de dez minutos
e logo é eliminada em forma de excreção renal.

E ainda que se distribua amplamente no organismo
nem atravesse a barreira hematoencefálica dos impolutos
atravessa a placenta do meu sistema nervoso central.



Mas me faz um favor se eu morrer.

Coloca lá na hora de eu descer pra cova alguma música com flauta
que flauteie suave e alegre
que eu não quero gente triste quando eu tiver feliz.
Bota uma roupa clara, com desenhos grandes
e me joga em baixo de um Ipê roxo
que eu quero todo inverno ver o chão pintado de folha.
Avisa lá na classe que eu fui de sorriso no rosto
e que não guardo ressentimento de ninguém
mas isso eu não garanto a sinceridade.
E me coloca um vestido decotado
depila a minha perna
pode usar cera quente que eu nem vou gritar.
Quem ficar pode levar qualquer coisa
mas meu mesmo eu não tenho nada
podem levar minhas piadas sobre a vida.
Quero também chocolate
pra todo mundo que estiver me olhando
que deve ser chato demais ver presunto com fome.
E alguém avisa pra ele
que eu o amei todo dia
até quando me deixou, e quando eu não podia.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Viver é uma bobagem já, vou aproveitar a deixa.

"Que os anjos da aurora boreal cobertos por um manto branco e transparente, com aroma de lavanda e Confort linha "Bebê Feliz", flamejando sobre os campos de tulipas turcas ao som da 57ª sinfonia de Tchaikovsky, felizes e fofinhos."


Daí eu terminei e percebi: Os anjos não fazem nada! Bando de anjos inúteis, que nem abençoar o casal eles abençoam.

E essa falta de momentos depressivos, e esse excesso de tédio, Final Cut, cadeira giratória, pão com manteiga, leite com nescafé, frango grelhado, frango no shoyu, frango desfiado com maionese, torta de frango, frango assado, hamburguer de frango, entre outras comidas com as quais eu tenho alimentado o meu corpo.






Em homenagem aos Jones, incluindo Norah Jones, Indiana Jones, Roger Jones, índice Dow Jones, Tommy Lee Jones e a Jones International University (The Gold Standard Online University).

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Neuroses

Hoje eu desmaiei. Pela segunda vez desde que operei meu ex-lipoma. Isso me trouxe a tona os mil episódios de House que já vi (exageeeeero) em que ele vê alguém simplesmente repuxando a perna e já descobre que ele tem câncer no cérebro.
Daí ficam as neuroses.
E se tem coisa no mundo que eu tenho, é neurose.
Por exemplo, todo minuto eu ouço o barulho de algum celular vibrando, e já me dá aquele pânico (ter que conversar com pessoas, nãããão!!). Ou então ouço um grave e fico tentando descobrir de onde vem, ou o simples ato de lavar as mãos - ou as duas, ou nenhuma. Neuroses. 
E agora estou com essa, de achar que esses desmaios podem ter causa séria.
Ok, post completamente dispensável.




PS: Saudade causa desmaio?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Vanessisses

Nossa, duas postagens num só dia, eu devo estar realmente me sentindo solitária.

Mas sabe, até que eu gosto dessa solidão programada. Nunca me esqueço do desespero que senti ao passar uma semana inteira ao lado do meu ex-namorado (droga, eu ainda não consigo me acostumar com essas denominações escrotas) e no fim dela me sentir tão sufocada ao ponto de querer terminar o namoro. Sabe, esse talvez seja um daqueles problemas sérios que a gente carrega pra vida inteira, o meu é ter a necessidade de me sentir sozinha. Pode ser coisa de criação, pode ser chatisse, mas quem vai lá entender as coisas da gente, não é mesmo?
Ah, sim, acabei de ver um episódio daqueles marcantes de House. As vezes gosto de me comparar a ele (não, eu não sou tão escrota quanto, só na teoria), mas digo isso pelo episódio em si. Era de uma menininha de 9 anos com câncer que pede pro médico bonitinho dar um beijo nela (até eu pediria, diga-se de passagem), e que no final do seu tratamento, em que sobrevive, vai lá e dá um abraço no tio Greg. Lindo. Ele nem se mexe. Eu sou exatamente assim. Meu deeeeeus, como é difícil expressar um sentimento. As pessoas poderiam se contentar em ler os olhos mais do que esperar abraços, mas não, parece que a maioria das pessoas que me cercam precisam dessas provas físicas de carinho. Ok, digo isso agora, eu sei que já reclamei muito dessa falta de carinho físico certa vez, mas vamos separar as coisas um pouco - entendam que eu sou tipo Dimension Anti-Caspa, 3 em 1. 
Ao mesmo tempo que estou aqui falando do excesso de demonstração de carinhos físicos, estou pensando no abraço que dei num dia frio em alguém, ou no beijo na mão que dei sentada em um sofá ouvindo RPWL, ou até mesmo no "Eu te amo" que eu ouvi tarde demais (desculpa, desculpa...).

3 Vanessas. Aquela que sente calada, aquela que vive sonhando, aquela que faz sem pensar. Ainda não sei de qual eu gosto mais (ou se eu gosto de alguma).

"And I'll keep singin in your ear
with you I had the best years"
(será que uma das Vanessas já entendeu?)

Fico me perguntando se por acaso alguém que leia isso entenda realmente um pouco do que eu digo. As vezes penso se ele lê isso, meu deus, se ele ler isso, que vergonha.  Mas desculpa, desculpa, eu não posso me limitar por isso... você sabe que eu não posso me limitar por nada... desculpa, desculpa...

Lapso momentâneo de razão.

Não vou lutar mais contra nada, porque estou naquela fase de achar tudo leve e aceitar passivamente o que o tempo me traz.
Aceito, suavemente, até mesmo com um sorriso no rosto, a falta inebriante que sinto de tudo um pouco. 
E fico assim, quietinha, de braços cruzados, deixando a vida seguir comigo sentada em uma canoinha, enquanto me dissolvo sozinha igual uma pastilha de Energil C.

domingo, 5 de outubro de 2008

Eu estava treinando pra falar da minha viagem pro RJ, da minha cirurgia para retirada do alien que havia em mim, e até pra dar uma politicamente correta que vota com consciência.

Mas tudo é sempre aquele mesmo vazio metafórico, um conjunto insípido de palavras que tentam, tentam, tentam, e no final só dizem o que todo mundo já sabe.
Alguma coisa que você não sabe?

Bom, você não sabe, mas eu chorei durante So Damn Luck porque eu realmente não sei como será minha vida daqui pra frente, e estou com medo. E continuei chorando porque apesar de todos os abraços e pessoas em minha volta, faltava alguém. E faltava tanto que parecia faltar tudo.
E você não sabe que eu disse tchau pra pessoas naquele dia querendo ficar, e eu odeio ter que fazer coisas que eu não quero. Sim, sou mimada e egoísta. 
E você não sabe, mas eu realmente votei acreditando no meu candidato. Vou ficar muito deprimida se não for bom, caso ganhe.
E você não sabe, mas agora eu vou poder cortar meu cabelo na altura do pescoço. 


E você não sabe, mas eu não vou cortar meu cabelo na altura do pescoço.



(E eu tento, mas ninguém nunca sabe como eu me sinto... por que ninguém leva meus sentimentos a sério? Seria eu tão inconstante que perdi a credibilidade? É, a chuva voltou, e eu nunca volto. A chuva sempre me leva embora, e arrasta no asfalto minha razão, deixando a falta constante que sinto de algo que eu ainda não descobri o que é. É um vazio sem nome, meu buraco negro particular. Você não sabe, mas eu não estou nunca em paz. Só quando você sabe.)