Eu tinha acabado de despejar água no copo com restos moles de sucrilhos, e minha mãe grita "Van, vem ver". Normalmente, quando ela me chama pra ver algo no computador, é sempre alguma coisa que eu já conheço e não vejo graça. Fui de esperançosa. "Fala", "Olha! Você!".
E forçando minha miopia e meu astigmatismo para encontrar um foco naquela tela, encontrei a imagem mais linda que poderia ter visto: uma foto preto e branca, com minha mãe, meu pai, e todos os amigos deles da época. Devia ter ao todo uns 9 na foto. Todos na frente de uma casa simples, sorrindo, com mini-saias as meninas, com shorts curtos os meninos, com seus 20 e poucos anos. "Essa é a Soli, essa a Zélia, essa a Iara, esse o papai, esse o Barata..." etc etc etc.
E lá estava ela. Minha mãe. E eu. Não, não, eu não estava na foto, eu estava no rosto da minha mãe! Ela e eu com 20 e poucos anos somos idênticas!
Sem querer, senti vontade de chorar. Chorar, chorar, chorar, até não querer mais. Em um segundo, eu vi tudo o que passei com meus amigos como em um filme preto e branco, e eu, daqui 30 anos, olhando as fotos e dizendo "Olha! Você!". Imaginei como seria ver no futuro aquela foto que eu tirei no último aniversário da Livia, que todo mundo se reuniu e dançou como se ninguém estivesse olhando. Como seria, lá pra frente, ver a foto do Gordo pelado na privada. Como seriam as fotos de Mongaguá, a inesquecível viagem que me fez ver que de 6 bilhões de pessoas do mundo, eu tive a sorte de conviver com os mais desprezíveis. Imagino como será ver as fotos do colégio, e sim, a foto em que eu to no portão de costas, com aquela saia que me evidenciava as "ancas". A foto gansa! E nossa, a última foto que tirei com a Dri no Brasil... era o dia que sairia o resultado das eleições da presidência, e o Lula foi reeleito. O Gordo me encheu o saco porque eu tava convicta em ser vegetariana. A Livia de chapéu! A maldita abelhinha! São tantas as imagens que me vieram à cabeça que imaginei que, no lugar de meus pais ali, eu estaria desesperada tentando voltar no tempo e ter de volta meus amigos, meus momentos, minhas pirações de adolescente, minha falta de preocupações.
Mas meus pais não estavam tristes. Não mostravam as fotos com o saudosismo pessimista, e sim com a nostalgia gostosa dos anos 70, que daqui a pouco eu verei que não foram assim tão melhores quanto o começo da primeira década de 2000.
Não sei se em 50 anos estarei casada, com uma filha de 20 e poucos anos, e comendo sucrilhos na frente do computador, mas quero eternamente ter em mim essas pequenas e gostosas lembranças de pessoas que eu amo e amarei pra sempre, não importa o rumo que a vida tomar. Quero olhar aquelas fotos e dizer "olha, essa é a Livia... a vocalista da banda da mamãe! E esse é o Gordo, quando ainda não era gordo! Olha, o tio Fê, quando ainda não tinha entrado na rehab... a tia Má e o Rick! Eles eram namorados, sabia? Xiii... longa história. Noooofa olha o Adiney, canta comigo, aaaaaaadiney que putaria é eeeeeessa... quando ele te tirou da minha barriga, em vez de te dar um tapinha na bunda, ele babou na tua cara... Sim, essa é a Andressa, antes de ficar rica e ter 14 filhos... E olha! Você!"
=)

4 comentários:
ahhhhhhhhh! me fez chorar! :/
Eu já pensava num comentário meigo a fazer até que li algo assustador. Como é que vc pode cogitar a idéia de parir seus filhos com o Adiney?
é, eu fiquei assustada quando me dei conta da merda que escrevi.
Ai que lindo, acho q esse foi a coisa mais sentimental que li da vanessinha...
até chegar na parte que vc decide ter seus filhos com o ed... meu deus.
agora a que eu mais gostei foi eu ficar rica..
amo todos forever
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