domingo, 28 de fevereiro de 2010

"A gente acostuma com o barulho."

Foi assim que me responderam enquanto minha cabeça explodia e eu tentava dormir num quarto em frente ao Minhocão. "É impossível dormir com esse barulho!", desabafei. Acabei conseguindo, não sei como. Agora não sinto sono, mas finjo que estou dormindo só para ter minha paz matinal que quase nunca alcanço.
Não, eu não voltei com o vanissage. Só queria escrever um pouco, exercitar a mente, deixar alguma arte me escapar além de montagens belas para vídeos de música gospel. Também não sei se quero contar de San Francisco - acho que tudo o que vivi fora do Brasil nesse tempo não teria a mínima importância retratada em palavras aqui, num blog quase inativo.
Mas é que hoje eu to meio sentimental.
São Paulo sempre vai ser barulhenta, bagunçada e até meio feia se for olhar friamente. Mas o Minhocão, convenhamos, tem lá seu charme. Tem vida própria, talvez, e acho que é por abrigar gente em cima, em baixo e nas margens. E bota gente nisso. Acho que tem mais vida em meio metro de Minhocão que em muitos condomínios gigantescos na tal área nobre.
A gente se arrasta bêbado pelos cantos do centro, pisando na merda de gente, pisando em gente na merda, rindo com estranhos, drogados, mendigos, me viro mulher de família fedendo a cigarro no meio de putas e cafetões, encaro como se fosse minha realidade que no fundo é.
É que aqui em São Paulo tem samba e tem rock e tem cerveja e tem droga, e eu sou mais uma dessas que se acostumou com o barulho, mas tem dor de cabeça e vontade de ficar sozinha.
E aqui é possível ficar sozinha, anônima, se perder numa multidão de rostos e perfumes baratos, no meio da sujeira e de ratos e de banheiros sem papel com portas pichadas.
E aqui tudo é itinerante, passa rápido e não passa nunca, como o barulho dos carros do Minhocão na janela, como os dias da semana que transformam o louco num trabalhador digno que cedo madruga, como as horas da madrugada pintadas num quadro impressionista onde eu sou um borrão no meio de todo esse lixo sagrado.
A gente acostuma com a rapidez do que se passa também. Seja um carro no Minhocão, seja você na janela.

2 comentários:

Diegonzo disse...

esse blog não é inativo. sua escrevente é que quer ser uma inativa. mas enquanto eu tiver a oportunidade de te chacolhar, nem que seja virtualmente, vou estar te enchendo a paciência para continuar... lágrimas no papel, sangue pulsando nas letras, é isso que sinto aqui...

Continue!

besoooo

Matheus Mendes disse...

É... e tem tanto barulho, que a gente nem lembra mais que está ali, gritando, bem na nossa frente... A vida e seus "costumes"... quando isso vai terminar?

Abraços, boa sorte, amiga Van!