domingo, 24 de outubro de 2010

Besouros

Bateu à porta.

Entra.

Jogou todos os livros e uma grossa blusa de lã em minha cama. Deitou-se, depois.

Espero não ter amassado nada, e riu.

Troca de disco, porra. Vai ficar ouvindo Led o resto da vida?

Só até terminar.

Terminar o que?

Esse desenho novo.

Ela pulou da cama e foi pra minha prateleira dos discos. Eu tinha certeza que escolheria Rolling Stones. Já me conformei por antecipação.

Toma, coloca esse.

Era o Animals. Por que ela trairia os Stones assim? Será que ela estava naqueles dias?

Vai, coloca!

Coloquei. Eu sempre faço tudo mesmo. Sou um bosta.

Deixa eu ver!

O que?

O desenho novo.

É um besouro.

Você só desenha bicho. Devia começar a fazer umas coisas mais legais.

Eu gosto de bichos.

Eu não. Nem de besouros.

Do que você gosta?

Tulipas.

Tulipas?

É, tulipas. Algum problema?

Não, nada.

Na verdade eu não achava que ela poderia gostar de flores, pensei que diria alguma marca de guitarra ou uma garrafa de cerveja alemã.

Acendeu um cigarro, ela sabe que odeio cigarro no meu quarto.

Dá pra apagar essa merda?

Você é muito careta, viu. E assoprou a fumaça na minha cara.

Fiquei esperando ela apagar. Não apagou.

Por que veio?

Sei lá. Queria conversar.

Não tem o César?

Eu não quero falar dele.

É óbvio que ela queria falar dele.

Então você quer falar sobre o que?

Sei lá. Besouros?

Você não gosta de besouros.

Ele me traiu.

Foda-se, eu pensei. Tinha que te trair mesmo. Você é uma vaca.

Queria ter verbalizado isso.

E aí?

E aí o que?

Você perdoou?

Claro... você sabe. o César pode ser o drogado que for, louco e tudo mais, mas eu sou uma trouxa.

Era uma trouxa mesmo. Mas eu não falei não, se eu falasse ela choraria pra mãe, que ia me dizer que eu não cuidava mais dela, e que eu era mais velho, que eu tinha que fazer tudo pra ela ficar feliz, nosso pai morreu, ela não teve pai, eu era o pai que ela não tinha, e todas essas merdas de mãe.

Você ama ele?

Ela finalmente apagou o cigarro e levantou-se.

Amo.

E ficou de frente para mim, imóvel, enquanto uma corrente de vento fez-se ouvida, batendo a porta do meu quarto, movendo a agulha da vitrola e levando ao chão meu besouro avermelhado ainda pela metade.

Olhou a folha de baixo.

Sou eu?

Era pra ser surpresa.

Sentou-se de frente pra mim, em meu colo, e beijou minha boca.

Eu não sou assim bonita.

E foi embora sem levar o casaco.





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Valeu pela inspiração do desenho, Ivan!


5 comentários:

Matheus Mendes disse...

Como sempre, Van-genial.

Mesmo não tendo idéia se foi autobiográfico ou não, hehehehe...

Bjo, guria!

van disse...

nãããooo cara!! eu não faço autobiografias não, tem irmão eu tenho!! hahahahah
valeu amigo =)

Mia disse...

Cada detalhe em seu lugar, perfeitamente dispostos. Adorei :D

Ruben Yannelli disse...

po vou ser chato literato de sempre, mas foi bom voltar a escrever! E outra coisa, "tudo é autobiográfico, até o que nao é" :P beijos e espero voltar a te ler!

Bajuladores de pessoas ricas disse...

Vanessa é morderna, mas leve. Consegue ser tipicamente contemporânea, mas sem exarcerbar em seus dramas, paranoias, convulsões e etc... É como se enquanto nos procurássemos abrindo caminho a pedradas, Vanessa nos achasse pelo afeto e pelo carinho, devida e levemente ritualizados pela pós-modernidade.


[João Touro]