sábado, 20 de setembro de 2008

Cinco

Pois então, devo escrever.
Dizem que quando a dor aperta, devemos escrever sobre ela. Hoje, em particular, sinto uma dor quase física. É como se todos os sentimentos do mundo se resumissem na infinita leveza de um sopro, que pouco a pouco encosta em minha pele e preenche os espaços vazios.
Espaços que eu esvaziei sozinha. Fui tirando grão a grão toda a terra dessa cova fria e solitária, sem perceber que no final quem deveria entrar nela seria eu. Sozinha.
E juro que foi por bem que fiz tudo o que fiz. Juro que foi pra ser a melhor pessoa que eu poderia ser. Juro que foi por amor, por respeito, por cumplicidade. Mas tinha que ser assim, tinha que ser uma solução drástica pra ver se a resposta viria de forma drástica.
Hoje eu pensei sobre o tempo. Se eu não tivesse feito o que fiz, eu teria passado 5 meses com o copo meio vazio, fingindo que estava tudo bem, fingindo que eu estava bem. O bom disso é que não preciso mais fingir. Não, eu não estou bem, isso é claro e visível pra quem quiser ver. Eu tenho olheiras, tenho olhos vermelhos, tenho dor de cabeça, quase está escrito em minha testa o quanto eu não me sinto bem.
Justo eu. Justo a menina tímida e prestativa, que sempre tentou ser a melhor pessoa do mundo pra todo mundo, pensando em vão que assim todos tentariam ser as melhores pessoas pra ela. Quem me vê assim, não diz que o motivo é o motivo. Falam que é o trabalho, a vida social. Dizem que é introspecção, dizem que é pura frescura. Eu era só um pouco disso tudo, mas meu sorriso sempre foi sincero. Hoje eu forço esses músculos pequenos e traiçoeiros do meu rosto.
E não que o motivo seja o único motivo. Talvez, isso tudo chegou onde chegou porque eu não posso mais me olhar no espelho e ver a Vanessa que eu sempre fui. Não consigo mais andar de cabeça erguida, e ver graça em um nascer do sol. Ficar ébria não faz mais sentido, conversar não me leva a nada, não há paixão que me prenda, não há abraço que me abrace. É como se tudo o que eu cativasse, eu soubesse que em algum tempo eu iria perder. Então, por que cativar?
Pode ser um milhão de coisas ao mesmo tempo, e pode ser uma só. Eu já perdi quase tudo, então agora também saber a quantidade não faz mais tanta diferença. Eu ainda tenho meu trabalho, minha saúde pra cuidar, e meia dúzia de amigos pra me fazerem acreditar que ainda há algo de bom no mundo. E tenho minhas flores roxas, minhas cinco estrelas. Então o que eu perdi foi muito pouco, se eu for numerar. Só perdi uma coisa - a esperança. Apesar de dizerem por aí que quem perde a esperança perde tudo.

Eu me senti livre há 5 meses. Hoje eu me sinto num cativeiro. Sozinha.
Desculpe-me por ter demorado tanto pra descobrir que eu vivo sem você, sim, mas a vida não tem nem sal, nem açúcar, nem brigadeiro de colher, nem omelete mal feito, nem discussões babacas, nem filminhos de sábado a tarde, nem certo, nem errado, nem um chão pra eu me apoiar, nem uma risada pra eu rir, nem nada.

Mas me disseram que passa. Até a mais sincera dor, um dia passa.

3 comentários:

Marina disse...

Van.. é voce? coloquei o endereço do "vai pescar" no meu blog... pelo jeito vc ta usando esse agora. beijos, Marina

Roger Jones disse...

brilhante como sempre.
esse é um texto que sente, pulsa e respira.
tem vida.
e tem que ter muita coragem e lucidez pra escrever um texto que tem vida.
e o segredo dele é que é um relato que p0ode ser justaposto a qualquer dor, não só a tua dor, ou uma dor específica... mas a qualquer dor, saca ?
esse é o segredo.
capturar a dor do leitor.
seja qual ela for.

amo-a.

Karyna disse...

Fiquei sem palavras...de verdade