sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Felicidade é poder tomar cerveja e comer chocolate.

Cheguei, engatinhando, nessa conclusão que eu já sabia há anos, mas nunca verbalizei.
No começo sentia que a felicidade eram os grandes passos da nossa vida. Lembro-me do par de patins que ganhei em um aniversário, e em um exercício de escola cheguei até a usar esse momento como um marco da minha vida. E por muito tempo, achei mesmo que aquele dia havia sido a síntese do que seria felicidade pro resto dela toda: ganhar um par de patins amarelos.
Mas como tudo nessas primaveras, soprou-me um vento que acabou por conduzir-me a uma outra resposta pra pergunta que eu havia feito e respondido algum tempo atrás.
Veio durante o banho. Eu esparramava o shampoo e pensava "oras, como eu poderia me conformar com a felicidade ser meu par de patins se hoje em dia eles nem me servem?"
Batata. Passei a pensar, e durante os 5 minutos subseqüentes cheguei a um veredicto: a felicidade, ao contrário do que eu pensava, estava nos pequenos momentos de nossa terrível existência, que nos faziam pessoas completas e sensíveis.
Passei muito tempo acreditando nisso. A felicidade era a hora do recreio, era ficar com aquele menino incrííível que todo mundo cobiçava, era usar uma roupa um número menor, era ir a um show de punk rock. 
Não que hoje eu não acredite mais nisso. Mas com o tempo, e essa definição aí durou muito tempo, eu fui agregando valores a ela.
Passei a acreditar que a felicidade também poderia ser resultante de coisas tristes, e descobri sem querer (mesmo!) que ela não durava mais do que uma fração de segundo - os momentos que as seguiam já eram nada mais, nada menos, que simples costume com o "sentir-se bem" que a felicidade provocava.
Mas a vida nos prega peças, e sempre acaba mostrando algo que não acreditávamos que aconteceria conosco. Foi quando eu encarei, talvez pela primeira vez, o oposto da felicidade. As pessoas dizem que é tristeza, eu chamo de vazio. Foi esse vazio, essa falta de mim mesma que me trouxe a tona outra definição pra felicidade. Foi vendo que eu me sentia sozinha no meio da multidão, que percebi a felicidade como algo muito menos palpável do que simples momentos.
Era uma manhã de setembro, ninguém estava beijando membro nenhum meu, e eu parei pra pensar no futuro. Eram 17 anos completos, e eu tinha que decidir tudo em menos de meia hora. Que carreira seguir, por que, como faria isso, em que instituição. Nessa hora não tem amigo, não tem momento. É você encarando a pergunta malígna de infância, "o que você vai ser quando crescer". Minha primeira crise existencial. Minha primeira grande decisão. E, com o passar dos meses, minha primeira depressão.
Estar no fundo do poço é viciante. Quanto mais se cava, mais se quer mergulhar. E eu mergulhei, de cabeça. Por anos. A amargura triste de sentir sozinha toda a tristeza do mundo, quieta, em silêncio. Ninguém mais precisava sofrer além de mim, e fui afundando, afundando... até, finalmente, reescrever a felicidade. Ela, a maldita felicidade, não existia.
Mas foi numa manhã quente que eu percebi que sim, ela existia. E estava ali, na minha cara, e eu só não via porque não queria ver.
A felicidade era, simples assim, o auto-conhecimento. Foi tentando me entender que descobri que eu poderia ser feliz. Era ver o sentido de olhar para uma flor nascendo, era sentir o calor do sol na pele, era olhar pro céu e escolher uma constelação pra ser sua. Era a felicidade orgânica e leve da natureza, da pureza, do amor.
E foi assim que defini a felicidade por mais anos e anos. Ganhei até um complemento: "Felicidade só é real quando compartilhada". O Alexander Supertramp disse, e alguns dias depois eu podia até experimentar sentir a felicidade pura e natural ao lado de pessoas que sentiam a mesma felicidade.

Mas hoje, nessa noite fria e vazia, sem pureza, sem vida orgânica, sozinha, de cabelo em coque, pijama rasgado e trabalho pendente, acabei percebendo o óbvio: Felicidade é tomar cerveja e comer chocolate sem culpa.

Muito mais fácil do que minhas velhas definições. Muito mais simples do que tentar me auto-conhecer, e entrar no citoplasma do cosmo em que boiam os momentos, as pessoas e os prazeres que eu mesma inventei como desculpa.

Cerveja e chocolate. Eles sim são sinceros. 

2 comentários:

Livia disse...

"Estar no fundo do poço é viciante"; é a primeira vez que leio isso e sou obrigada a concordar. Falou pouco mas falou TUDO.

Avati disse...

Pois é, ficaste grande demais para os teus patins. Pequena demais para caber num copo e numa mordida.
O que é a felicidade? O quanto você se dilata ou se contrai pra caber no instante certo? Sei lá, prefiro não dar nomes à felicidade, mas chamar de felicidade algumas coisas que já têm nome. Beijo, Del Negrinha.