De pouco em pouco surgia a luz na janela. Ela, que tinha os cabelos soltos espalhados no ombro, abriu o vidro e deixou o vento soprar-lhe a cara. Cena de filme europeu, onde a mocinha vê a vida com a leveza e beleza que só as cores naturais e gestos sutis podem representar. Era bem sonsa, na verdade. Sem sal, sem açúcar, mas como tinha plena noção de sua falta de graça, disfarçava bem roupas cor-de-rosa, sorriso pintado de feliz, estilo "paz e amor" roubado lá dos anos 70. E era essa a cena que ela gostava de representar. A cena de quem tem conteúdo, mas não passa de uma mocinha dependente dos pais, com consciência de sua falta de tempero, na ânsia louca de encontrar um amor pra vida inteira que venha resgatá-la do tédio de seus dias, montado num cavalo branco.
Ao mesmo tempo, do outro lado do mundo, ele acordava de ressaca, vomitando sangue e ainda elétrico de pó. Tinha na vida uma única ambição: morrer trepando. Acreditava, diariamente, que as pessoas o admiravam pela sua beleza e inteligência, mas de certo nem ele sabia o quanto era porco em seu trabalho e inútil em sua vida.
Um dia, como outro dia qualquer, esbarraram-se no meio do caminho e se apaixonaram. Quatro meses depois se casaram, e com oito meses de casados, tiveram seu primeiro filho de uma ninhada de dezessete.
Ninguém nunca entendeu nada.
Nem eu.
4 comentários:
e alguém precisa entender?
vai saber!
hehehehhehehhe
muito bom
"...é preciso dar cor e forma às coisas porque desnudas elas apavoram..."
Caio Fernando de Abreu
não precisa.
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