Ela, a dona da língua ágil, segurava um livro de técnicas de redação forense. Ele não segurava nada, além do fogo que se acendia diante do chacoalhar frenético lingüístico da moça que estudava redação.
"Próxima estação: Vergueiro"
Curiosamente, cheguei tão rápido na Vergueiro que quase sugeri a mim mesma um wormhole metroviário. Semana passada demorou tanto! Tanto que foi capaz de secar minha boca, remoer meu estômago, fazer-me pensar em 218 coisas diferentes, e, erroneamente, iludir-me um pouquinho. As pessoas vivem me lembrando que não devo viver alimentando minhas ilusões, mas não tem jeito, elas surgem. Eu gosto delas.
E aquela língua enfiada na boca dele, fazendo movimentos de liqüidificador.
Eu, euzinha, perdi o único show da Virada Cultural que me interessava, mas ganhei um show do Novos Baianos, um isqueiro, um beijo, um monte de abraços, uma cerveja, uma dor de garganta. O que não esperava seria que lá mesmo eu teria minha primeira experiência como vítima de um gatuno oportunista - roubaram-me minha bolsinha amarela com 30 reais dentro (e um beijo também, mas creio não ter sido da mesma pessoa). Sinto falta da bolsinha amarela, era ela minha companheira fiel de vários shows e festas, como na sexta passada em que fui pela segunda vez no bar do Ceará e no Ventania. E como previsto, sempre volto desses lugares com alguma coisa pra lembrar e outras pra guardar como segredo. E muita ressaca, muita. E isso me lembra que preciso urgentemente parar de beber, antes de mais algum vexame que envolva desmaios, vestidos curtos, coxas e nádegas brancas, calcinhas amarelas e meninos amarelos.
Mas na verdade, o que me deixou mais indignada foi o fato de estarmos num lugar público, cheio de pessoas, e ela ter metido aquela língua de 2 metros na boca dele, e feito aquele movimento que mais me lembrava uma cobra fazendo reconhecimento de território. Digam-me, fiéis leitores, por que cargas d'água alguém inventa de fazer algo tão constrangedor em plena estação Vergueiro? Aquilo era mais intimidante que sentir vontade de mijar na Praça da República, no meio do show do Joelho de Porco, e se ver obrigada a entrar em um banheiro químico. Primeiro passo: procurar alguém capaz de segurar a porta pra você. Segundo passo: entrar com as calças arriadas até o joelho. Terceiro passo: tornar-se cego, tampar o nariz e fingir que é normal, todo mundo mija numa cabine de 1x1 perigando ser vítima de um monstro de merda que sairá vaso acima e pulará diretamente em sua nádega. Taaaantos anos de assepsia e higiene íntima pra deixar as partes expostas a uma privada química.
(Mas ainda prefiro a privada ao beijo reptiliano na estação Vergueiro)
Ainda carrego aquelas sensações que me acompanharam nos últimos dias. Uma mistura de medo com prazer. Amizade com decepções. Saudade com esperança. Trago a mesma imagem martelando em minha cabeça, o mesmo gosto dançando em minha boca, o mesmo cheiro preso na minha roupa. Viajo no tempo, e tudo parece que demora mais.
(Sinto, sim, a falta... não quero mais me acostumar com ausências...)
Me disseram uma vez que nosso coração só carrega uma pessoa por vez... por que meu coração não entende isso? Vive ele querendo carregar todo mundo!
Mas sim, estou de volta ao meu dia normal, com hábitos normais, minhas retrospectivas para casamentos, o boleto da pós, as madrugadas com Final Cut, essa minha vidinha mais ou menos.
Só espero, pelo amor de deus, tirar da minha mente aquela imagem do beijo reptiliano...
2 comentários:
Calcinhas amarelas. AHAHHA
eu fiquei confuso com o beijo reptiliano, pareceu que era algo agradável até a comparação com a privada e dali pro fim...
e eu que comecei a sentir na pele as sensações megalomaniacas do meu aparelho táctil? Tive que correr do centrão pra dentro do hotel pra me abrigar do frio, dos cotovelos e da interminável agitação.
depois, só no Novos, mesmo =)
beijo de quem sempre cheira o teu cabelo.
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