Mas como sempre, tudo me impressiona e fascina. A preguiça de uma pessoa sem nada a me oferecer logo é condenada à minha mania de tentar decifrar cada pequeno pedaço de sua alma, mesmo que seja só por imaginação ou julgamento infundado. E acontece assim, todo dia.
Vi por hora a moça de circo. Falante, linda e potencialmente interessante. Tanta vida em vida e o que ela esconde? Estaria atrás do nariz um palhaço, alguém buscando o abrigo de um abraço amigo? Ou é real a loucura e felicidade? Vi num livro de histórias, uma pessoa cheia de sonhos e medos, que procura a liberdade a qualquer custo, mas que nunca sentir-se-ia livre se não gritasse suas asas a todos os cantos. Penso ainda se me identifico, mas fico calada diante de todas as minhas realizações... Confessei a meia-luz para um conhecido-estranho a realização de meu maior sonho que está por vir, e não recebi uma gota sequer de entusiasmo. É por isso que não conto meus sonhos. Quase ninguém tem vontade de ser feliz pelo que não o afeta. É hipocrisia dizer que alguém se sente feliz por você, por você ter realizado algo, ganho algo, o evento que for - é hipocrisia. Ninguém é tão altruísta a esse ponto. Chegamos no nível que a felicidade alheia é disfarçada por uma mentira branca para tornar a vida social aceitável.
Já os velhos amigos sempre me surpreendem. Os anos passam e tudo o que sinto é que não passo da frieira do pé do que seria há alguns anos uma única pessoa. Lamento, instintivamente. "Vamos marcar algo!" e sei que não vamos. Percebi que de todos, a mudança estética e intelectual: aquele que um dia gritou que era meu amigo por puro interesse, hoje está forte, malhado, gostosão mesmo, não bebe cerveja, não come fritura, não pede desculpas e ainda é capaz de me deixar chateada com uma única frase. Eis aí algo que eu vivo questionando a mim mesma: como pode uma pessoa tão querida por todos ser capaz de destruir tudo o que há de tolerante e amável em mim com tão poucas palavras?
- Você não está na conversa.
Eu não estou na conversa. Saí dela assim que saí de mim, mas isso não fiz ontem, semana passa, mês passado. Tenho saído de mim com a constância de um período lunar. Mudar já faz parte de tudo o que me move, não saberia viver comigo mesma todos os dias.
Mas no fundo, entendo. Compreendo, também. Você sofreu como todos nós. Você não foi bonito, você amou sem ser correspondido, você ouviu as risadas apontando todas para você. Você, amigo, tem a razão de ser amargo e sentir prazer em magoar os outros. Você sofreu como todos nós...
Já o outro, engoliu a seco as palavras que me lançou num passado. Pisou em todas as minhas feridas e hoje carrega uma por uma na barriga. Carrega inclusive a namorada que não sou eu. Como teria sido, se fosse diferente? Se talvez algo fosse assumido e gritado, seria diferente? Estaria eu hoje onde estou, com meus amigos, meus calos de puxar ferro, minha falta eterna de grana, minha vitrola no quarto? Estaria eu hoje, com essa angústia do não saber o que fazer, presa à saudade do que foi?
Estaria eu hoje?
As pessoas carregam dentro delas todo o infinito de uma vida em cada fio de pensamento. Cada atitude é só um reflexo do que se foi um dia, e de todo esse infinito particular. É justo tentar entender uma pessoa com uma única atitude - tudo o que ela é está dentro dessa pequena atitude. Foi o beijo roubado depois de cuspir em minha cara. Foi dizer o que realmente pensa sobre mim quando pensou que eu não estivesse vendo. Foi me tirar da conversa. Foi a sutileza com que pegou o cigarro da mesa pela primeira vez. Foi pedir pra tirar uma foto. Foi o simples ato de pedir para tirar uma foto. Quanta vida tem no eterno de um segundo. Quantos segundos vivem de verdade uma vida. Tanto tempo se perde jogando que muitas vezes se esquece de parar de jogar. Pode parar de me seguir agora, passado besta! Já não vê que eu tô conseguindo viver sem me lembrar de você?
Por um minuto, sonhei que alguém pudesse um dia dizer o que tem de impressão sobre mim, sem as mentiras brancas do convívio social, sem o pudor clássico de quem tem medo das mágoas. Algum dia alguém saberia questionar-se os meus dramas e meus silêncios? Alguém entenderia meus medos?
Alguém?
Até a amiga de infância que passa por mim olhando em meus olhos, vira o rosto diante do meu oi. Momentos depois pergunta-me se eu sou eu. Diz que estou irreconhecível.
Quem sou eu, que até a mim mesma confundo?
Seria o meu rosto, a forma como dou risada e bato com o copo na mesa, a maneira com que assopro a fumaça de um cigarro, o cabelo que gruda no olho, no rosto, no corpo, em você, em nós, sempre, esse cabelo onipresente e participante. Cabelo com vida própria.
Eu também não me reconheço, quase nunca.
6 comentários:
Alguém?!
PS: ênfase no cabelo que gruda.
acho que nada é o que é senão o que vemos... e o que vemos não é o que vemos senão o que somos.
e o que somos ?
nós somos o que esquecemos.
minha mãe, gradativamente, está esquecendo de mim e de si.
:/
quanto à mim, lembro-me de mim e esqueço-me de mim, mas como um tolo autômato obediente ao afã destrutivo que predispõe minhas fugas: lembro do pior de mim... e do meu melhor dedico meu alzheimer manipulador.
crer no melhor de si "é muita responsa", dizem... e corre-se o drástico perigo de deixar de ser criança.
porque quem confia em si não precisa de colo... são pessoas insuportavelmente... hum... sei lá... felizes.
e como fazer literatura sendo autônomo, hein ?
hein ?
me diz.
como ?
como fazer litaratura sendo autônomo ?
e agora, é irônico, nem o colo primário que me cuidou me verá como filho perdido e frágil... mas alguém, enfim... "alguém que não se sabe quem é, quem foi, quem será".
e eu nem vou poder me queixar... porque é assim que eu vejo todas as "pessoas".
:/
"Ninguém é tão altruísta a esse ponto. Chegamos no nível que a felicidade alheia é disfarçada por uma mentira branca para tornar a vida social aceitável."
belo texto! e olha que to num mau humor do cão... belo texto, enfim!
RUN RUN RUN
beijo e te cuida mocinha
fiquei tonta! ou sou uma tonta?
vou começar a postar meus textos com dedicatória pra ti, afinal, és a única que lê e que comenta, o que não é pouco.
Muito bom, como sempre.
Keep up the good work!
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