Foi essa a primeira pergunta que me fizeram, lá em meados de 1997. Eu tinha meus 11 anos, e até então só tinha engolido discos do papai. Não que isso seja ruim: seu Zé me ensinou direitinho que as melhores bandas de todo o mundo são Queen e Pink Floyd, desde que eu tinha algumas semanas de vida. Quantas viagens pra Cafelândia cantando Dire Straits, ou tardes em casa ouvindo Led Zeppelin no véio toca-discos.
Mas era eu, com 11 anos, assistindo MTV pelas primeiras vezes de um ser na pré-adolescência precoce. Senhor Steven Tyler sentado em uma cadeira elétrica, se esgoelando com aquela boca de 29 cm de raio, uma música emocionante, e eu era apaixonada pelo menino mais nerd e magrelo da classe (logicamente não-correspondida). Pimba, descubro a banda que formaria o meu caráter: Aerosmith.
Corri pro computador. Internet discada, primeiro tempo da boa e velha UOL - Experimente por 30 dias, aquela emoção de ouvir o barulhinho rouco da conexão se estabelecendo. Em alguns minutos já tinha descoberto quase tudo o que precisaria pra pedir de presente pra mamãe meu primeiro CD não-infantil (sim, até então eu tinha um da Xuxa e outros dois da Sandy & Junior). Deve ter sido espantoso: uma menininha doce e boba como eu pedindo pra mamãe um CD cuja capa era um trem meio indiano, meio sexual, meio rock'n'roll demais. Ganhei. Lembro que CD na época era caro, uns 20 reais. Pra mim era caro. Eu gastava só na cantina do colégio e no Seu Tibério, com a Livia e a Marcella, comprando Cheetos, Toddynho e Charge. Sim, eu sou gorda de infância.
Devo ter passado coisa de uns 6 meses ouvindo só Pink e Hole in My Soul (nessas alturas o clipe de Pink já passava na MTV e minha mãe e eu víamos empolgadas todas as vezes). Fui descobrir o resto do Nine Lives só lá pra 1998, época essa em que me vi correndo em uma esteira ergométrica (inutilmente, confesso, com 12 anos tentar fazer regime) pensando em como seria minha vida caso eu me casasse com o Steven Tyler. Sim, pessoas, era eu com 12 anos completamente apaixonada por um tiozão de quarenta e tantos. Devia ser isso, acho.
Não durou muito, pedi o Big Ones de presente. Orgasmo auditivo: eu, cara a cara com o melhor do Pump, Get a Grip e Permanent Vacation. Descobri o solo de guitarra mais lindo do mundo (Joe Perry em Amazing), e a essas alturas do campeonato eu já tinha uma pasta dessas de plásticos anexados, com inúmeros posteres comprados em bancas de jornal, fotos impressas do Steven Tyler, biografia de todos os membros e da banda, já sabia de cór todas as datas, tinha músicas traduzidas com meu porco inglês do CNA, e definitivamente tinha planejado minha vida para me encontrar com o bocão e casar-me com ele.
Lá pelos 14 anos fiz minha terceira aquisição musical - Graetest Hits 73-82, com músicas dos melhores discos dos caras. Tinha desde Dream On, até a desconhecida Kings and Queens, que eu adorava. Lembrem-se: em 1999, essa palhaçada de internet ainda era coisa de rico, e meu pai não me deixava nem pensar em instalar um programa pra baixar músicas. Tudo o que eu ouvia era literalmente garimpado de rádios e moedinhas juntadas pra comprar CDs.
Eis que a gente cresce e começa a ouvir bosta, é o ciclo da vida. Num dia qualquer, que eu faria 15 anos, pedi pra um amigo que tinha gravador de cd no computador (!) baixar umas musicas e me dar de presente. Nessas eu lembrei de uma banda que havia ouvido falar, de longe, chamada Dream Theater. "Baixa qualquer coisa aê, só pra eu conhecer." Que eu me lembre, foi Erotomania e 6 o'clock. Achei um lixo. Mas percebi, de certa forma, que eu buscava mais desafios musicais, que Aerosmith estava começando a ser segundo plano. Com medo, e já grandinha, chamei a Livia pra ir comigo na Galeria do Rock, e comprei o Permanent Vacation. Pouco antes, tinha conseguido comprar o Pump e o Draw the Line. Aerosmith foi renascendo em mim como uma brasa retorna à chama, e lá era eu gritando por tantos os cantos Checkmate, don't be late, take another pull!
Mas o destino nos prega peças. E essa foi das brabas. No auge de minha paixão pela banda e da decisão que iria mesmo fazer amor com o Tyler pelo menos uma vez na vida, eles me lançam o Just Push Play.
Na mesma época, a Livia que já tinha acesso a algumas coisas mais interessantes, me mostrou uma música de uma banda que eu tinha alguma lembrança, algum interesse latente: Strange DejaVu, de um tal Dream Theater.
Batata.
Peguei ela, todos os meus cds do Aerosmith e fui pra Galeria do Rock, puta da vida. "O sonho acabou", pensava eu, "Just Push Play é pior que comer merda." Vendi quase minha coleção inteira dos caras e catei a grana pra comprar uma camiseta do Dream Theater.
Sorte que não quiseram me comprar o Draw the Line. Um dia qualquer, já com uns 17 anos e um pouco mais de maturidade musical, voltei a ouvir os clássicos do Aerosmith, e voltei a me apaixonar por tudo. Até pelo Just Push Play (que tbm não tinha conseguido vender). E o tempo passou mais ainda, até que em 12/04/2007, os caras tocaram aqui na Terra Brasilis, onde tem palmeiras e canta o sabiá. Nem preciso dizer que foi o show mais esperado da minha vida e depois de um estado de choque, desandei a chorar durante 5 músicas.
O show acabou, eu não conheci o Tyler, mas aquilo foi um dos melhores presentes que o destino poderia me dar.
Acontece que 2 anos depois eu tenho a notícia que o Steven Tyler resolveu sair do Aerosmith. Não quero me estender aqui sobre a notícia, mas ela é oficial e verídica. E desculpem-me fãs de Joe Perry, mas a banda sem ele é só mais uma de Hard Rock farofa. Até seria bom se acabasse tudo de uma vez, eles já não produzem como antes, e viraram malditos comerciantes de música.
Como eu disse, o sonho acabou mesmo no Just Push Play, que pra mim é o ápice de decadência musical dos caras. Mas não posso negar a energia e loucura desses malditos no palco, levantando a galera com riffs que grudaram em nossas cabeças e fizeram parte de minha vida.
Agora eu só espero que o Tyler reconsidere sua decisão e em 2011 (antes do mundo acabar) resolva juntar a banda de novo pra uma tour caríssima e especial. E eu vou, e vou ficar na grade, e chorar 5 músicas seguidas, e tentar conhecer o Steven. Afinal, a gente tem que sonhar até o sonho virar realidade, né?
"So, from all of us from Aerosmith, to all of you out there, wherever you are, remember: the light in the end of the tunnel may be you. Goodnight." (trecho final de Amazing)
6 comentários:
Você vendeu Aerosmith pra comprar Dream? Merece que façamos sanduíche de Vanessa mesmo...
e eu nem pude ir no show! :{
Continuo te dizendo: Te amo sua desgraçada.
"Poor, poor Vanessa..."
¬¬
Porra, trocar Aerosmith por dream theater é a mesma coisa que trocar duas horas dançando loucamente por meia hora no dentista
e eu com 19 anos, feliz com o meu Queen... XD
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