As horas passam. Aquele seu relógio prateado, pequeno para pulsos grandes, se mexia constantemente de um lado para o outro tentando mostrar algo além de inquietação.
Acendeu mais um cigarro. A elegância com que puxava pra si a fumaça, carregava como um mito toda a nicotina, o alcatrão e o desespero das horas que passam.
Nada acontecia. Pediu pro garçom encher o copo com mais cerveja. O cigarro parado no cinzeiro tinha sua marca de batom vermelho, e queimava calmo. Deixou a cabeleira cair pelos ombros. Uma manta dourada que brilhava em ombros largos. Uma bailarina não pode ser assim tão grande. Imaginou seus passos, fortes e precisos demais para uma apresentação como a do dia que se passava. Desistiu do show. Foi parar naquela galeria suja do centro de São Paulo, sentada em uma cadeira torta, tomando cerveja num copo americano e fumando um cigarro barato.
Ali ela não era bailarina. Não era delicada, firme ou loira. Não era grande, não era pequena, não era nada.
Era uma puta. E as horas passam, segundo por segundo.
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