sexta-feira, 12 de junho de 2009

É inverno, de novo.

É tempo de flores roxas cobrirem o chão.

Lembro-me como se fosse ontem: era meio dia e eu comia correndo aquela gororoba de abóbora com arroz, eventualmente com um pedaço de frango no meio, e ligava as "antenas de metal" em algum disco do Marillion. Saía andando pela rua lotada de uma São Paulo na hora do almoço, quase berrando "But when you're gone I never land in neverland" e sentava naquele banquinho da pracinha da macumba. Uma vez, juro, tinha uma galinha morta e esturricada ali. Nem tinha visto, sentei do lado dela, só reparei na nojera quando um monte de pombos petulantes vieram pentelhar a minha fossa. Quase pulei pra trás! Não que eu seja supersticiosa, mas pera lá, uma galinha morta é muito pra minha racionalidade.
Teve aquela vez da velhinha que alimentava os pombos também. Ela levou, sem brincadeira, 1 quilo de arroz pra tacar aos bichos. Passei quase 40 minutos olhando o arroz acabar e virar cocô de pomba, e nesse momento tive o estalo que me fez entender o sentido da vida: o ser humano é que nem pombo - só sabe correr atrás de comida, engole sem sentir o gosto e ainda depois caga tudo em cima de alguém que não tem nada a ver com a história. Não sei se depois disso meu fascínio pelos pombinhos aumentou ou foi pro saco de uma vez por todas.
O frio tem dessas brincadeiras: você pode estar de bem com a vida, mas resolve inventar uma fossa só pra poder testar seu limite sentimental - hoje me peguei descendo a rua de casa e ouvindo Lóki. Nah, numa boa amico, quem ouve Lóki num dia dos namorados frio como esse, das duas uma: ou tá antecipando suicídio ou querendo fingir que é personagem de novela mexicana. Pra primeira é simples. Bota na "Será que eu vou virar bolor" e pega a navalha. Até o final do disco, você pelo menos já desmaiou. Mas a segunda é bem mais divertida. Mete um "Desculpe" na orelha, abre os braços e ajoelha. Grita:

- ME ABRACE! DIGA-ME O MEU NOME! DIGA QUE VOCE ME QUEEEERRRRR!!!!

É quase terapêutico. Fiz isso no ano passado, certa vez, em cima de um tapete roxo de ipê. Esse ano, miraculosamente, ainda não entendi muito bem o motivo, mas não tô sofrendo por amor e muito menos pela falta dele. Parece que no ano passado tive toda a minha cota de frustração e arrependimento, chorei todas as lágrimas do mundo, morri por horas, por dias, por vidas, e de tanto morrer, resolvi que agora o que vier é só lucro. É aquele velho caso do "não tenho nada, não posso perder nada". E ao mesmo tempo, guardo tudo de todos. Sou um pouco do mundo inteiro, discutia isso outro dia enquanto tomava um caldinho de feijão. E esse mundo todo é um pouco de mim, e eu gosto disso. Eu gosto de me jogar pra vida sem saber o que buscar dela.

Mas diga aí, é inverno. Renasce o Ipê Roxo que passou todo o primeiro semestre tímido ali, no cantinho dele. Eu não renasço, cansei de morrer, agora é só a vida que me espera.

6 comentários:

Dai Die disse...

NOTA I: o ser humano é que nem pombo - só sabe correr atrás de comida, engole sem sentir o gosto e ainda depois caga tudo em cima de alguém que não tem nada a ver com a história. GENIAL.
NOTA II: Ficamos todos juntos, reunidos, numa pessoa só. Lóki, bela lembrança.
NOTA III: acho que o frio está congelando o cérebro de algumas pessoas, mas felizmente não é o nosso caso.

Dai Die disse...

:)

Diegonzo disse...

Van
mais uma vez sensacional
escreves como um homem X321398130984
o ser humano é que nem pombo - só sabe correr atrás de comida, engole sem sentir o gosto e ainda depois caga tudo em cima de alguém que não tem nada a ver com a história.

BESO

Paula Castro disse...

Como diria meu chefe, tem coisa mais poética que a Amy cantando "I died a thousand times..."?

E olha, se joga mesmo pra vida sem saber o que buscar, pq, como eu esses dias por aí, que a resposta para o desejo seja apenas desejar...

(é toda uma discussão filosófica, deixemos pro próximo caldinho de feijão..!)

Matheus Mendes disse...

Parabéns novamente.
Como sempre, fiquei atônito.
Acha que conseguirei ler o próximo?
Depende...

Katyusca disse...

Não tenho comentários para esse dia tenso.