sábado, 28 de fevereiro de 2009

Sexo.

Perceba o estrondo literário que essa palavra de 5 fonemas, 4 letras e 2 sílabas provoca. Parece que fica presa na garganta, e até escrevê-la dá a sensação horrorosa de estar poluindo seu vocabulário com o mais grotesco da língua portuguesa. Vê-se que é tão desgraçada que passou até ilesa pela solene reforma ortográfica - tiveram a coragem de acabar com meus queridos tremas e não tiveram a decência de detonar essa aberração fonética.
Meu primeiro contato com o "sexo" foi lá pelos 5 anos. A professora da escolinha mandara recortarmos palavras no jornal que começassem com S. Batata. Grudei essa tranqueira no caderninho e mostrei pra mamãe: "Ó mãe, achei essa aqui!" e ela "Juuuusto essa?". Ficou marcado. Acho que desde lá eu já sabia o quão odiável "sexo" se tornaria pra minha vida.
O segundo contato, acredito eu, deu-se lá pelos 7 anos. Eu tive uma daquelas crises de querer perguntar tudo, típica de criança. Meu raciocínio não conseguia ligar a ordem dos fatos: já sabia que não haviam cegonhas voando no céu de São Paulo com bigatos enrolados em trouxinhas, e eu vivia comendo repolho mas nunca ficava prenha. Sobrava a teoria da sementinha no umbigo. Peguei uma, de melancia, e comecei a enfiar buraco abaixo, mas não adiantava, a tal semente não entrava na barriga - até então, eu já entendia muito bem que pra alguma coisa parar no seu estômago, fazia-se necessário comê-la. Mas que idéia idiota, comer semente e embuchar?
Lembro-me com a clareza de um filme passando diante de meus olhos: removi a semente do umbigo e fui até a cozinha, onde minha mãe cozinhava, de avental. Era noite. 

- Mãe. Como que o papai colocou a sementinha no seu umbigo?

Ela respirou fundo. Nessa época, lembro-me bem, eu já tinha certeza absoluta que odiava ser criança. Todos sabiam disso, e quem ainda duvidasse me ouviria gritando "Eu não sou criança! Sou adulta!" no primeiro momento. Como imaginaria eu que hoje, tecnicamente adulta, grito em plenos pulmões que quero ser criança toda vez que a responsabilidade sobre meus atos bate na porta. Mas piveta por piveta, mamãe sempre soube que eu era um pouco mais lúcida que a maioria das outras da minha idade. Como eu disse, respirou fundo. Aquela era a hora da verdade. A hora que todos os pais esperam aflitos. 

- Minha filha... não tem sementinha. Pra ter filhos, os pais precisam fazer SEXO.

A ênfase na palavra "sexo" foi tanta que quase gritou. Encarei-a profundamente e algo me dizia que aquilo seria horrível. Nada de bom poderia ter um nome tão assustador.
Saí correndo e me tranquei no quarto por horas.

Talvez esses dois primeiros contatos com a medonha palavra de 5 fonemas, 4 letras e 2 sílabas hoje sejam os responsáveis por eu evitar essa palavra com todas as minhas forças. A sabedoria popular me deu até a inestimável ajuda de inventar sinônimos menos estrondosos que a dita cuja - variações como "foder", "trepar", "fornicar", "comer", "dar", entre outras menos saudáveis, já salvaram minha vida. Ok, ok, eu sei que é esteticamente deplorável para uma menina doce, baixinha, de cabelos revoltados e olhos azuis dizer lascivamente "trepei com ele", mas minha integridade moral antes de mais nada. Não dá. "Fiz sexo com ele", nunca!
É quase como dar um tiro no pé, um chute no saco, um beliscão no mamilo! Não poderíamos todos convencionar a maldita fornicada como "fiz amor com ele"? Tá, ok, não se ama todo mundo que se fornica. Mas querendo ou não... estar lá, com as pernas abertas, desejando e sendo desejada, não é a mesma técnica utilizada nos casos de amor e de libertinagem?
Afinal, por que não podemos ter um amor libertino? Amar loucamente por 11 minutos aquele que te faz virar os olhos?

Apóio a abolição da palavra sexo. E todas as suas variáveis. Chamemos os homossexuais de gays ou lésbicas, os heterossexuais de caretas, os trans/pan e outras coisas bizarras que a sociadade moderna inventou de travecos, os metrossexuais de bichas enrustidas, o sexo feminino de mulher, o sexo masculino de homem e o sexo casual de amor ou trepada.

Minha dignidade auditiva e literária agradece.

4 comentários:

Dai Die disse...

apoiada!

Rodrigo Motta disse...

rs... - achei deveras interessante seu blog, e tb os q acompanha...
bom, da onde eu sai? - vi seu profile na last.fm ... como gostei doq vi, e segundo o motor d busca da ferramenta a cumplicidade musical é notória - enfim, c rolar entrar em contato... www.rmotta.info
tks, ;)

Diegonzo disse...

"o cara queria fazer amor com ela"
ahahahahahaha
isso é memorável, é fantástico!
e viva a Van!

Katyusca disse...

cara, o melhor post esse.! HAHAHAHHA
Embora eu não tenha nenhum problema com a palavra sexo, pelo contrário.

adorei.