domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tentativa #1 - Reviver todos os detalhes.

Decisão. Vou. Preciso parar com essa mania besta de fazer frases com uma única palavra. Decisão, vou! Chamo amigas. Elas não vão, o que é plausível. Nessa fase da minha vida, nem eu sei mais o que busco. Vou para me distrair, não pensar no fiasco gastronômico vivido há algumas horas. Posso ouvir gritos na sala, preciso sair depressa. Peço carona. Falamos de casamento. Eu não quero me casar, não por não acreditar em família ou no amor, talvez somente pelo simples fato de eu não acreditar que algum dia alguém poderá ser feliz ao meu lado e vice versa. Paguei com duas notas, três moedas. O metrô vai aumentar, pensei, desgraça. Dois reais e cinqüenta e cinco centavos, desgraça. Mais do que 10%. O trem demora. É uma constante na linha verde de final de semana. Saio e vou direto pro Espaço Unibanco. Sem leitura de metrô. Sem vontade de pensar. Fila que acaba na rua "aqui é o fim?", "sim", entro. Eis que me surge de relance o par de óculos mais marcante de minha vida, que quero dedicar a ele um post único. Será o Post Professor Pocotó. Olhei por muito tempo. A moça atrás de mim está inquieta, quer logo comprar o bilhete. É justo. Chegou rápido a minha vez, "19:10, Tudo foi um Sonho". 8 reais. Decido por um café, o melhor café da região indubitavelmente, no Espaço Unibanco das salas 4 e 5. Tem lugar na bancada. O meu preferido, diga-se de passagem. Tem outra moça querendo comprar alguma coisa, e ela sorri, diz que eu posso ir primeiro. Gentileza, adoro essa palavra, gentileza. Sorri de volta, pedi meu café. 2,20 - um copinho de água com gás, um expresso, uma bolachinha. A bolachinha também é minha preferida. Já pedi dezenas de cafés só pela bolachinha. Sento, água, adoçante, isqueiro, trago, gole, e lá se passam 5 ou 10 minutos. Vou pra sala 1, que já vai abrir. Tem uma senhora lendo, um banco vazio, duas amigas conversando. Um lugar perfeito, em frente à tela, no meio da sala. "Com licença, tem alguém do seu lado? Posso? Obrigada!". Senhora simpática. Também estava sozinha. A solidão nos torna simpáticos. Fica aqui a ressalva - toda nossa vida buscamos por uma companhia, ainda que inconscientemente. Sempre olhamos o que nos interessa, tanto material quanto intelectual, que pode ir desde um abraço a um milk shake. Qualquer resquício de identidade que nos traga pra dentro de nós mesmos, e tente pelo décimo de segundo contido na intenção de um sorriso, preencher o vazio sem esperança que carregamos dia após dia. Ela sorriu, e eu entendi que naquele momento éramos a mesma pessoa. Solitárias, simpáticas. Abri meu livro. Já consegui passar da metade da "Insustentável Leveza do Ser", e descobri que o bom dos livros é poder ver neles o que você não tem coragem de admitir pra si. Apagam-se as luzes. Peço pra senhora guardar meu lugar, preciso ir ao banheiro. Sorrimos. Há tanta história em nossos sorrisos quanto Homero pode contar e todas suas linhas. Penso no caminho que se eu pudesse ouvir os pensamentos, o que pensariam daquela moça sozinha que estava indo ao banheiro? Sabonete de espuma. Adoro sabonete de espuma. Pularia numa banheira de sabonete de espuma. Volto, e meu lugar está seguro. As luzes se apagam, o filme começa. É de todo triste, desde que começa até a hora que termina. Me senti olhando "Menina de Ouro" ou "O Pianista". As luzes se acendem, subo a Augusta. O cara do caleidoscópio ainda está na rua. Lembro-me do Erick. Ligo pro meu pai, ele não vai me buscar no metrô. Fico com medo, mas não me importo. Sento de frente pra um rapaz usando uma camiseta do Yellow Submarine, que toca air-guitar o tempo todo. Tudo nele me irrita. Mas de tudo o que é capaz de me irritar em uma pessoa, aquelas meias ganham de lavada. Por que, meu deus, usar meias brancas esticadas na canela? Vocês, fãs de hard core, têm algum problema com os tornozelos? Acham bonito? Não, não é.
Acho que a história acaba por aqui, porque não quero dar detalhes sobre a menina de vestido e calça que escrevia freneticamente dentro do metrô. A gente odeia dar detalhes de pessoas que se parecem conosco. Maldita autopreservação. Mas chego em casa, sentindo o mundo e o nada. Sinto fome. Sinto cansaço. 
No final, eu sou sempre a mesma... só guardo um sorriso diferente pra cada pessoa.

5 comentários:

Guilherme disse...

eu quase sempre comento pelo msn. e a palavra que apareceu em "verificação de palavras", o evita-spam, foi: jounlans.

abraços.

Carlos Carvalho disse...

Eu nunca comento pq sempre leio no feed... sempre esqueço que dá pra comentar essas coisas, enfim. Ótimo o café de lá mesmo... e a bolachinha. Seria clichê dizer que seus posts são sempre muito bons, vc sabe que eu gosto mesmo. Então, fico feliz pela senhora que guardou seu lugar. Ganhou uma das melhores companhias pra cinema, e talvez nem tenha percebido.

Dai Die disse...

tu foste ver qual filme? fui ao cinema no sábado ver Ensaio Sobre a Cegueira, saí em estado de choque...

"...um sorriso para cada pessoa..."
gostei disso.

van disse...

então, fui ver o novo da Kate com o Leo, o "Revolutionary Road". é lindo, mas é absolutamente triste, dá vontade de cortar os pulsos.
o ensaio é lindíssimo, eu ainda não consegui descobrir o que nele é mais marcante, tocante... mas ainda, meirelles que me perdoe, prefiro a linda narrativa do querido Saramago... =)

Roger Jones disse...

parabéns, tecnicamente, Vanessa... frases curtas é super moderno em literatura... e também parabéns porque o teu niilismo tá cada vez mais engraçado... porque o elemento mais importante do niilismo é o (mau) humor contido nele, saca ? se não tiver humor o niilismo não tem alma... e o que não tem alma fica, tipo assim, que nem o Dream Theater.

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