O fato é que passei o dia inteiro com uma senhora dor de cabeça que não passou nem depois de meia barra de chocolate meio amargo, um (HUM) bis, uma colher de doce de leite e logo mais a noite, a trufa mais feliz que já ganhei em minha vida (obrigaaaada amigo, ganhou meu respeito e carinho pra sempre!). Cheguei em casa daquele jeito voraz que só eu e alguns demônios viciados em crack sabem como é, e vejo o raio do botãozinho da secretária eletrônica piscando. Já pensei de cara "quer ver que é a Marcela e a Livia muito loucas me chamando pra beber e eu aqui com a cabeça explodindo, de saco cheio e com vontade de me enfiar num microondas enrolada no papel alumínio" e daí a voz de homem muito macho amplificando-se pela sala, onde mama e papa de pé, escutavam tudo com atenção e afinco:
"Zé, acabei de falar com a mulher do Chum e ele faleceu agora pouco. O corpo tá sendo liberado e vai ser enterrado amanhã de manhã."
Como assim, meu deus, quem deixa recado que o amigo morreu na secretária eletrônica? Seria isso algum tipo de piada de mau gosto? Remete-me isso aí logo a tudo de ruim que tem no universo mortal do ser humano. Digamos que morrer é um saco, por tudo aquilo que todo mundo já sabe muito bem o que é, mas além de todas as inconveniências carnais e humanas, tem as chatices burocráticas de arrumar velório, enterro, caixão, coroa de flores, avisar amigos, deixar recados na secretária, gastar uma grana preta e ainda aguentar gente que você nunca viu mais gordo te abraçando e dizendo "o tempo cura". Pois é, o câncer o tempo não curou né, mas a dor, ah!, essa sim tem cura e fica atrelada ao prazo de validade, parabéns saudade, você vai passar com o tempo!
Estarrecida com toda essa minha falta de compostura humanística, decidi por fim que não queria o boldo, pois este me exigiria o esforço físico de amassar as folhas para delas extrair o sumo salvador dos fígados fracos e oprimidos. Tinha pãozinho de queijo desses que a gente compra pronto e só precisa botar no forno, numa grande bandeja em cima do fogão. "Vai me foder" eu sempre soube, mas peguei uma porção e já fui abrindo e metendo o doce de leite no meio. O telefone tocando a cada 5 minutos putaqueopariueutocomenxaqueca e logo me vi admirando o pote de bolacha água e sal, que com doce de leite também fica uma maravilha. Típica larica bizarra de querer comer qualquer coisa que não ande. A água fervendo, coloco na chaleira pra finalizar a carqueja que me espera sorridente com uma pá de arrancar fígado, e percebo que quase todos os amigos do meu pai que nunca na vida ligaram pra ele pra desejar um feliz aniversário que fosse, estão agora descontrolados ligando um a um, para falar sobre o enterro, velório e outras convenções sociais e demais festinhas que só acontecem quando alguém morre.
O Chum era, segundo minha mãe, o mais legal de todos. No final do ano passado, tinha marcado uma festa numa chácara. Ele disse que bancava tudo, e que queria ver os amigos em vida, porque do jeito que andavam as coisas eles só iam se encontrar de novo no primeiro velório da turma. Ironia do destino? Talvez. Nota mental: nunca mandar e-mails para meus amigos sugerindo nos encontrarmos antes que algum morresse. A festa seria perto do dia do meu aniversário, e eu lembro que fiquei até feliz, porque há muito tempo tava querendo uma festa com gente diferente que pudesse me arrancar novas risadas.
Me pego assim, num misto de compaixão e sarcasmo que gira em torno do fato de eu considerar, friamente, que comigo será exatamente assim. Daqui 30, 40 anos, irei olhar fotos de agora, sentir saudades, e reencontrar meus amigos no primeiro velório da turma. Até chuto o defunto: o Rick, com câncer no pulmão. Na ocasião todo mundo vai esquecer as velhas rusgas, relembrar os bons tempos e talvez até trazer de volta os sentimentos e amores perdidos no meio do orgulho e de um calendário cristão e linear.
Definitivamente a dor de cabeça melhorou com o chá, as tranqueiras e o silêncio. Ainda não abracei meu pai dizendo que sinto muito, e acho que nem farei isso. Não que eu não sinta, simplesmente não consigo. Preciso dormir cedo, sem pensar no funeral dos meus amigos e em quanto eu engordei nas últimas 36 horas.
Minha vida segue quando o farol abre.
4 comentários:
grande !
excente post.
EU NEM BEBO MAIS!
tristemente real...
belo post
se um dia alguém escrever algo parecido quando morrer, ja estarei satisfeito e humanamente homenageado...
como se diz mesmo nessas horas?
ah, sinto muito... e sinto mesmo
bjo mocinha
te gusto mucho, viu?te cuida!
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