quinta-feira, 26 de março de 2009

Balanço

- Mais alto, mais alto!

Eu passo pé ante pé, na rua da praça infestada de mato e merda de cachorro.
A criança suja no pneu do carro, amarrada por uma corda no galho da velha árvore.
O outro moleque ri enquanto empurra o pneu pra longe, muito longe.

- Mais alto, mais alto!

O farol fecha na R. Vergueiro e eu paro em frente à árvore velha.
E em frente à criança.
E em frente ao moleque.

- Mais alto, mais alto!

Lá de cima a árvore só vê o que é carro e é concreto.
Vê o jogo de futebol no domingo entre os simples do bairro.
Vê o jovem que corre com a bolsa da velha que grita "Pega ladrão!"

- Mais alto, mais alto!

Lá de baixo o moleque só vê o que é sujo e o que não o pertence.
Vê as pessoas desviando de seu cheiro, vê os pais afastando dele os seus filhos.
Vê num pneu amarrado no velho tronco a infância trocada por bala no farol.

- Mas alto, mais alto!

E não vê a força que carrega em seu estômago podre.
E não vê a força que traça seu caminho torto.
E não vê a força que empurra o balanço no galho velho.

- Mais alto, mais alto!

Cede o galho, rompe a corda.
Voa o anjo menino para o meio dos carros.
Minha vida segue quando o farol abre.


2 comentários:

Carlos Carvalho disse...

poesia social.

Arte em Papel Machê disse...

Adorei!! Você escreve muito bem mesmo!!