Eu passo pé ante pé, na rua da praça infestada de mato e merda de cachorro.
A criança suja no pneu do carro, amarrada por uma corda no galho da velha árvore.
O outro moleque ri enquanto empurra o pneu pra longe, muito longe.
- Mais alto, mais alto!
O farol fecha na R. Vergueiro e eu paro em frente à árvore velha.
E em frente à criança.
E em frente ao moleque.
- Mais alto, mais alto!
Lá de cima a árvore só vê o que é carro e é concreto.
Vê o jogo de futebol no domingo entre os simples do bairro.
Vê o jovem que corre com a bolsa da velha que grita "Pega ladrão!"
- Mais alto, mais alto!
Lá de baixo o moleque só vê o que é sujo e o que não o pertence.
Vê as pessoas desviando de seu cheiro, vê os pais afastando dele os seus filhos.
Vê num pneu amarrado no velho tronco a infância trocada por bala no farol.
- Mas alto, mais alto!
E não vê a força que carrega em seu estômago podre.
E não vê a força que traça seu caminho torto.
E não vê a força que empurra o balanço no galho velho.
- Mais alto, mais alto!
Cede o galho, rompe a corda.
Voa o anjo menino para o meio dos carros.
Minha vida segue quando o farol abre.
2 comentários:
poesia social.
Adorei!! Você escreve muito bem mesmo!!
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